13 dias depois de eu nascer, uma bomba caiu em Cannes. Poucos anos depois, era eu uma criança ainda, lembro-me de ter visto este filme, e algumas memórias me ficaram, como o ataque aéreo a uma aldeia ao som de Wagner, uma memória ténue do The End dos Doors sob fundo pictórico hipnotizante, e memórias profundas da imagem e voz do Marlon Brando. Mas ao longo do tempo estas imagens tornaram-se memórias longínquas, difusas, que apenas me diziam que tinha visto o filme e tinha gostado, mas não tinha a noção do todo. Tinha uma ideia da história, tinha memórias da imagem, tinha marcas profundas da música, mas descobri há pouco tempo que com 7 ou 8 anos não tinha capacidade intelectual para me deixar inebriar pelo filme...
Revi-o recentemente, e foi como se o tivesse visto pela primeira vez, porque o que me tinha ficado do filme, por mais forte que seja, por mais brilhante que seja, não fazia jus ao todo. E o que é o todo? Melhor filme de guerra de sempre? Não. Essa era a ideia que tinha, algumas das mais brilhantes cenas de guerra que já tinha visto em filme. Este filme é mais, bastante mais que apenas um filme de guerra. É poesia pura.
Tenho lido algumas coisas sobre o filme, e parece que tudo faz sentido. A história da produção é um outro filme, um filme que se confunde com a própria história do cinema americano. A primeira ideia para o filme nasceu no final dos anos 60. Originalmente era para ser realizado por George Lucas, Francis Ford Coppola era apenas o produtor executivo, e aquando das negociações para avançar com o filme, acabou por arranjar um outro contracto para realizar ele mesmo O Padrinho. Depois do êxito alcançado com esse filme, atirou-se a uma sequela, e a primeira parte da década de 70 foi passada nesses dois filmes que lhe deram um estatuto imenso na indústria. Mas Coppola não se esqueceu deste filme, e depois dos dois filmes em torno da Máfia estarem concluídos, retomou as negociações para se gravar a guerra do Vietname. Mas nessa altura, George Lucas já estava embrenhado na sua Guerra das Estrelas, e já não estava interessado em gravar guerras mais terrestres. Depois do argumentista também se negar a realizar o filme, Coppola pediu a Lucas se este não se importava que ele mesmo realizasse o filme. Lucas já nem queria saber do filme.
Com a industria a seus pés, depois de dois filmes que arrasaram os Óscares e inúmeros outros prémios, Coppola estava completamente confiante das suas capacidades, e sem a mínima preparação, apenas armado da sua equipa, apenas apoiado num esboço de um argumento, Coppola arriscou ir para as Filipinas gravar o filme sem saber como o fazer. Esperava que há medida que as gravações decorressem durante os cinco meses programados, o filme crescesse dentro de si e já em plena gravação ele soubesse como concluir o filme. Mas…
Mas… Em pleno cenário de guerra real, embrenhados numa floresta selvagem, sem a mínima noção de como fazer o filme, as gravações arrastaram-se além dos 5 meses previstos. E as contrariedades não se ficaram por aí, entre tornados que destruíam os locais de gravações e entre o actor principal sofrer um ataque cardíaco, ao longo de dois anos filmaram-se mais de 500 horas de filme, batendo todos os orçamentos previstos, sem nunca saber ao certo como fazer o filme… Quando Marlon Brando chega ao local para filmar as suas cenas, o que encontra é uma equipa derrotada, no limiar da loucura, e a sua chegada ainda piora as coisas. Brando estava gordo, muito acima do peso que um oficial do exército deveria ter, e como se isso não bastasse, não tinha lido o seu guião, nem sabia nada do filme, nem do livro em que se tinham inspirado. O filme estava condenado ao fracasso. Coppola teve que improvisar, filmar Brando embrenhado em sombras, para não se ver o seu excessivo peso, e gravou tudo com Brando a improvisar ou a ler poesia. Não se poderia fazer melhor, todas as filmagens tinham sido um fracasso, estava toda a gente exausta, esgotada, no limiar do desespero e da loucura. Dois anos sufocantes no coração duma floresta selvagem, enquanto o país viviam uma terrível guerra civil. Quando as filmagens terminaram, e a equipa regressou a casa, o estado de espírito era tal que Martin Sheen nem os filhos reconhecia.
Mas as contrariedades não tinham terminado. Coppola começa a editar o filme, procurando encontrar o que queria nas mais de 500 horas gravadas, mas o seu estado de espírito não era o melhor, andando as voltas com as imagens, sem nunca se conseguir decidir sobre o que fazer. Ao fim de dois anos de edição frustrada, o estúdio rouba a fita a Coppola e encarrega um editor de fazer uma versão urgente, a fim de poderem estrear o filme em Cannes. Até ao último dia, tentou-se fazer um produto aceitável, mas quando o filme foi finalmente estreado, ainda era uma versão provisória, a terminar mais tarde.
Mas… Aquando da estreia, os críticos, de mente fresca, sem terem passado pelo pesadelo de gravações e edição do filme, tiveram uma visão do filme enquanto obra em si, e o que viram foi apenas um dos melhores filmes de sempre.
Pura poesia, um filme que leva as experiências humanas ao máximo, ao extremo, uma visão do mais primordial que o ser humano tem. Uma viagem através da loucura, do horror, do mais negro do coração humano. Mas de uma forma poética, quase divina, um despojamento total de toda a humanidade e sociedade. Aquilo que o filme pretendia ser, e aquilo que sem querer Coppola acabou por fazer. Mas ele não o sabia fazer, teve que passar por tudo isso, pela loucura, por mergulhar no mais negro e selvagem que o ser humano é capaz de fazer, teve que perder todo o discernimento e racionalidade, teve que lutar contra o filme, contra todas as diversidades E ele e toda a sua equipa mergulharam tão fundo, que ao fim de um tempo o filme já não era ficção, era uma cruel guerra que travavam pelo sobrevivência, por uma qualquer réstia de humanidade que entretanto acabaram por perder. E desse modo, o filme acabou por ser real, dolorosamente real, e ao ser estreado, e anos depois, ainda é uma brutal visão do mais negro e obscuro que o ser humano é capaz de fazer… Uma obra maior do cinema mundial. O lado selvagem da Humanidade em forma de poesia.
Segunda-feira, Agosto 03, 2009
Sábado, Julho 18, 2009
Unveil Lyric
O meu mundo esvai-se.
Pensamentos que me afloram a mente, perdem-se depois no turbilhão de pensamentos que acabam por se confundir uns aos outros. Talvez agarrar um… É apenas isso que é necessário. Agarrar um pensamento, agarrá-lo com todas as forças, gritar ao vento e ao nada apenas esse pensamento, multiplicar, repetir, esvazia-lo ao seu máximo esplendor. É isso que é preciso… mas quando o começo a escrever… Fica apenas uma frase, e a impossibilidade de a sentir…
Respiro fundo, derrotado, acendo um cigarro e fico a olhar a chama do fósforo a dançar antes de morrer. Não saber o que escrever, ter a fome, a vontade, mas não ter nada que escrever… Como se o grito que me rasga a alma fosse tão violento que nem deve sair da sua gruta escura…
Pensamentos que me afloram a mente, perdem-se depois no turbilhão de pensamentos que acabam por se confundir uns aos outros. Talvez agarrar um… É apenas isso que é necessário. Agarrar um pensamento, agarrá-lo com todas as forças, gritar ao vento e ao nada apenas esse pensamento, multiplicar, repetir, esvazia-lo ao seu máximo esplendor. É isso que é preciso… mas quando o começo a escrever… Fica apenas uma frase, e a impossibilidade de a sentir…
Respiro fundo, derrotado, acendo um cigarro e fico a olhar a chama do fósforo a dançar antes de morrer. Não saber o que escrever, ter a fome, a vontade, mas não ter nada que escrever… Como se o grito que me rasga a alma fosse tão violento que nem deve sair da sua gruta escura…
Domingo, Junho 28, 2009
Renascimento de um Morto...
A cultura pop é uma coisa muito engraçada. De tempos a tempos acontece algo, e o mundo inteiro une-se em torno do mesmo assunto. Já há uns meses tinhamos tido o exemplo da Susan Boyle, agora veio o definitivo assunto pop do ano, da década, só não sei se baterá a morte da Diana...
Pessoalmente, tive pena do homem. E por estranho que pareça, confesso que sempre foi um artista por quem senti simpatia. não, não estou a deixar-me levar pelas emoções, sempre o disse, a minha opinião sempre foi a mesma. mas existem dois Michael Jacksons. O principal, aquele que todos conhecem e sempre conheceram, mais não é que um produto triste e patético desta cultura pop ridicula que agora se tenta redimir. E isso teve apenas uma razão de ser. A verdade é que desde cedo, muito cedo, que ele tinha algo especial. Inicialmente era apenas um miudinho bonito e engraçado, as pessoas, a cultura pop, apaixonou-se por ele, e abraçou-o, sufocou-o como fez com inumeras crianças antes e depois dele. E o resultado é sempre o mesmo. depois de deixarem de ser pequeninos, engraçadinhos e bonitinhos, abandonam-nos, geralmente agarrados, quase sempre com problemas, sempre com uma sensação de que foram explorados, e o que sobra são restos humanos que tentam levar uma vida normal depois de terem a sua infancia destruida.
Mas este miudo foi diferente. Quando deixou de ser pequenino e engraçadinho, quando partiu para a vida adulta com a ilusão que ia manter-se no auge, famoso e que as pessoas o iam continuar a adorar, como tantos outros, a história foi diferente do que é sempre. Ele não caiu, muito pelo contrário, o que ele fez foi revolucionar completamente a industria musical, o que ele fez foi apenas e só o disco mais vendido de todos os tempos, o que ele fez, foram canções que ainda hoje toda a gente se lembra, reconhece. E isso é inaceitável. isso não podia ser. É insuportável para o comum dos mortais ver tanto sucesso num único individuo (vide o caso recente da transferência do Cristiano Ronaldo), e a inveja cega, e impotente de algo mais, impotente de suplantar quem lhe é superior, o comum dos mortais apenas tem uma hipótese - falar mal. E os jornais querem vender, e por isso devem dizer o que as pessoas querem ouvir. Michael Jackson tornou-se anedota.
Mas não existem heróis, nem existem pessoas superiores ao comum dos mortais. E Michael Jackson já era mesmo um resto humano com a infância destruída, com traumas, com problemas emocionais, e apesar de todo o seu êxito, de todos os seus milhões, o homem era fraco, e duma forma patética e ridícula aceitou ser a anedota que todos queriam que ele fosse.
Do mais irreal, ao mais grave, ao mais anedótico, criou-se em seu redor toda uma série de mitos, criou-se toda uma personagem que a partir de certa altura já era impossível distinguir a realidade da fantasia. Tudo se tornou real, o homem tornou-se a personagem, e acredito que já nem ele conseguia distinguir o homem no meio da anedota. E esta era a personagem que todos nós conhecemos durante toda a nossa vida. Até que ponto será real? Provavelmente nunca saberemos.
Mas havia o outro Michael Jackson. aquele que a partir de certa altura desapareceu, morreu. Talvez sufocado pela estrela que entretanto nasceu, talvez porque a vida é mesmo assim. O outro era o cantor, o músico, o dançarino e o compositor. Vou ser sincero, achava-o um cantor banal. Tinha uma voz única, tinha, mas nada me diz. o dançarino estou-me simplesmente a cagar, nem quero saber, nem sequer sei ver se dançava bem ou não. Mas o músico, o compositor... pessoalmente, acho-o apenas e só o melhor compositor pop que a merda da música pop teve de há muitos e muitos anos para cá. Há uma coisa que detesto nele, ter criado a música pop como ela é hoje em dia. ter sido a matriz para milhentas e milhentas de cópias mal feitas, para ser o único responsável para a pop nos ultimos quase 30 anos ser a miséria que é. Mas apesar disso... Ele não tem culpa dos outros serem tão maus, porque ele realmente foi muito bom. As composições escritas por ele, são simples genialidade pop, o que a pop deveria ser. Boas melodias, cantaroláveis, ritmo. Músicas belas, intensas, alegres, ou raivosas, mas sempre emotivas... é isso que a música pop deveria ser. Foi isso que ele fez, e fez como quase ninguem, e de certeza que teve o impacto que mais ninguem teve. Pagou o preço de ser tão bom, perdemos durante largos anos a noção do que ele era. Mas felizmente, parece que de repente, agora que ele já faz parte do passado, agora que já ninguem tem inveja dele, nos ultimos dois dias, os media mundiais enterram a personagem criada e finalmente podemos ver aquilo que ele sempre foi. O verdadeiro Michael Jackson, o melhor compositor pop dos ultimos 30 ou 40 anos.
Nunca uma morte foi tão boa...
Pessoalmente, tive pena do homem. E por estranho que pareça, confesso que sempre foi um artista por quem senti simpatia. não, não estou a deixar-me levar pelas emoções, sempre o disse, a minha opinião sempre foi a mesma. mas existem dois Michael Jacksons. O principal, aquele que todos conhecem e sempre conheceram, mais não é que um produto triste e patético desta cultura pop ridicula que agora se tenta redimir. E isso teve apenas uma razão de ser. A verdade é que desde cedo, muito cedo, que ele tinha algo especial. Inicialmente era apenas um miudinho bonito e engraçado, as pessoas, a cultura pop, apaixonou-se por ele, e abraçou-o, sufocou-o como fez com inumeras crianças antes e depois dele. E o resultado é sempre o mesmo. depois de deixarem de ser pequeninos, engraçadinhos e bonitinhos, abandonam-nos, geralmente agarrados, quase sempre com problemas, sempre com uma sensação de que foram explorados, e o que sobra são restos humanos que tentam levar uma vida normal depois de terem a sua infancia destruida.
Mas este miudo foi diferente. Quando deixou de ser pequenino e engraçadinho, quando partiu para a vida adulta com a ilusão que ia manter-se no auge, famoso e que as pessoas o iam continuar a adorar, como tantos outros, a história foi diferente do que é sempre. Ele não caiu, muito pelo contrário, o que ele fez foi revolucionar completamente a industria musical, o que ele fez foi apenas e só o disco mais vendido de todos os tempos, o que ele fez, foram canções que ainda hoje toda a gente se lembra, reconhece. E isso é inaceitável. isso não podia ser. É insuportável para o comum dos mortais ver tanto sucesso num único individuo (vide o caso recente da transferência do Cristiano Ronaldo), e a inveja cega, e impotente de algo mais, impotente de suplantar quem lhe é superior, o comum dos mortais apenas tem uma hipótese - falar mal. E os jornais querem vender, e por isso devem dizer o que as pessoas querem ouvir. Michael Jackson tornou-se anedota.
Mas não existem heróis, nem existem pessoas superiores ao comum dos mortais. E Michael Jackson já era mesmo um resto humano com a infância destruída, com traumas, com problemas emocionais, e apesar de todo o seu êxito, de todos os seus milhões, o homem era fraco, e duma forma patética e ridícula aceitou ser a anedota que todos queriam que ele fosse.
Do mais irreal, ao mais grave, ao mais anedótico, criou-se em seu redor toda uma série de mitos, criou-se toda uma personagem que a partir de certa altura já era impossível distinguir a realidade da fantasia. Tudo se tornou real, o homem tornou-se a personagem, e acredito que já nem ele conseguia distinguir o homem no meio da anedota. E esta era a personagem que todos nós conhecemos durante toda a nossa vida. Até que ponto será real? Provavelmente nunca saberemos.
Mas havia o outro Michael Jackson. aquele que a partir de certa altura desapareceu, morreu. Talvez sufocado pela estrela que entretanto nasceu, talvez porque a vida é mesmo assim. O outro era o cantor, o músico, o dançarino e o compositor. Vou ser sincero, achava-o um cantor banal. Tinha uma voz única, tinha, mas nada me diz. o dançarino estou-me simplesmente a cagar, nem quero saber, nem sequer sei ver se dançava bem ou não. Mas o músico, o compositor... pessoalmente, acho-o apenas e só o melhor compositor pop que a merda da música pop teve de há muitos e muitos anos para cá. Há uma coisa que detesto nele, ter criado a música pop como ela é hoje em dia. ter sido a matriz para milhentas e milhentas de cópias mal feitas, para ser o único responsável para a pop nos ultimos quase 30 anos ser a miséria que é. Mas apesar disso... Ele não tem culpa dos outros serem tão maus, porque ele realmente foi muito bom. As composições escritas por ele, são simples genialidade pop, o que a pop deveria ser. Boas melodias, cantaroláveis, ritmo. Músicas belas, intensas, alegres, ou raivosas, mas sempre emotivas... é isso que a música pop deveria ser. Foi isso que ele fez, e fez como quase ninguem, e de certeza que teve o impacto que mais ninguem teve. Pagou o preço de ser tão bom, perdemos durante largos anos a noção do que ele era. Mas felizmente, parece que de repente, agora que ele já faz parte do passado, agora que já ninguem tem inveja dele, nos ultimos dois dias, os media mundiais enterram a personagem criada e finalmente podemos ver aquilo que ele sempre foi. O verdadeiro Michael Jackson, o melhor compositor pop dos ultimos 30 ou 40 anos.
Nunca uma morte foi tão boa...
Sexta-feira, Abril 03, 2009
Futebol By Kusturica
Futebol. Um mundo de lendas, mitos e heróis. De homens de carne e osso transformados em figuras divinas, de catalisadores de emoções, de êxtases de dimensões sem par. Neste mundo que alimenta os sonhos de uma imensa maioria há um nome que consegue suplantar todos os outros: Maradona.
Símbolo da magia do futebol, a sua rápida ascensão foi seguida da sua queda abrupta, criando assim um mito maior que a própria vida, símbolo do melhor e do pior que o mundo do futebol tem para oferecer. Para quem não se lembra do magico jogador na sua plenitude (como eu, que apenas tenho uma vaga memoria) a única imagem que temos de Maradona é já de alguém que os entendidos dizem ser um predestinado, mas que apenas nos é dado a ver a sua triste decadência, mais consentâneo com os podres de um mundo corrupto que propriamente a magia de um espectáculo belo em si mesmo. Todos nós já vimos e revimos imagens daquela tarde magica no México, numa meia final do Campeonato do Mundo contra a Inglaterra, em que Maradona marcou um golo com a mão, tão obvio e claro que a única pessoa em todo o planeta que não o viu a cometer essa ilegalidade foi o arbitro da partida, criando assim um tal estado de raiva no estádio e em todo o mundo que os insultos a Maradona ribombaram naquele estádio e nas mentes de todo um mundo que observava a partida através da televisão. Mas se a mão de Deus, como ele provocadoramente designou esse golo, viraram todo um mundo contra si, seis singelos minutos depois desse golo Maradona criou espontaneamente o momento mais belo da historia do futebol, recebendo a bola a meio campo, correndo feito flecha no meio de uma floresta de pernas, rasgando toda uma selecção inglesa onde pontificavam alguns dos melhores defesas do planeta, ouvindo (ou não) todo um estádio que o insultava e inclusivamente um colega de equipa que lhe gritava “Passa a bola filho da puta!” e num rasgo de génio único, marcou o melhor golo da historia do Futebol. Todo o estádio se silenciou por segundos, todo um mundo susteve a respiração, e nesse exacto momento, toda a gente percebeu que Maradona era mesmo o melhor jogador de sempre, e todo o estádio irrompeu em aplausos de êxtase, e todo o mundo que o via pela televisão soube que tinham acabado de assistir a um momento magico. Maradona era Magico, Lenda, Rei, Deus… E os insultos duraram apenas seis minutos, antes de Maradona ser coroado pelas mesmas pessoas que o crucificaram durante esse tempo.
Quem tem uma tarde assim talvez nem precise de mais nada para ser lenda. Talvez os problemas com a droga, a violência e a má-criação sejam perdoadas a quem tem um momento mágico destes, talvez isto juntamente com a sua curta mas fulgurante carreira justifiquem o mito que Maradona ainda hoje possui, talvez… Mas eu tenho outra opinião. Para mim talvez o momento em que Maradona justificou o seu mito, ou pelo menos a sua razão, não esteja naquela tarde do Verão de 1986 no México, nem na sua carreira em Nápoles, muito menos na sua passagem por Barcelona. O mito de Maradona nasceu muito antes, num bairro pobre de Buenos Aires, onde quando tinha 10 anos de idade uma equipa de filmagens de uma televisão argentina filmou por acaso uma pequena criança a dar toques numa bola. Naquele pequeno filme uma criança pequena, quase raquítica, de 10 anos demonstrava uma habilidade tal com a bola que dir-se-ia que esta fazia parte de si. Os seus olhos de criança tinham um fulgor estranho, olhavam a bola como se fosse o mundo todo, como se a sua fome de sonhos se saciasse naquele singelo objecto esférico, como se toda a humanidade, toda a vida, toda a gloria, todos os seus sonhos de criança pobre estivessem concentrados naquela bola. E a bola, o mundo, os seus sonhos, a sua vida, era como se fizessem parte de si, e ele brincava com ela. Como se aquela criança, tão pobre, tão desgraçada, tão inocente, desafiasse a própria vida, se risse de escárnio na face do destino, como se soubesse que ele, criança, inocente, sonhador e pobre controlasse o seu destino, a sua vida, todo o mundo através daquela simples bola de couro. O menino, Diego de seu nome, Diego Armando Maradona para a eternidade, ou simplesmente Maradona, controlou a vida e o destino, subiu ao céu, viveu toda a glória, realizou todos os seus sonhos de criança, mas nunca cresceu. E essa a razão do seu mito e do fascínio que ainda hoje exerce em nós. Maradona é simplesmente um puto, faz o que quer, quando quer, como quer, não respeita ninguém, não quer saber de nada senão de si mesmo, é malcriado quando quer, é egoísta por vocação, é mimado, provocador, insolente e estúpido, é a criança de dez anos em toda a sua plenitude, é a encarnação da doce memoria da nossa infância, é o homem feito sonho, a nostalgia feita carne, é tudo aquilo que todos os adultos querem ser, uma criança de dez anos cujo mundo é uma bola que voa ante nossos olhos, e que controlamos com o olhar brilhando sonhos que sabemos virem a ser realidade. Por isso o seu mito, a sua dimensão maior que a sua pessoa. Maradona é apenas aquilo que qualquer homem deseja ser, uma criança eterna, aquela criança que dá toques num mundo inteiro com aquele olhar de magia e sonho… Melhor jogador de sempre? Sim, mas não só, Maradona é muito mais que apenas um jogador de futebol, é o sonho de infância feito realidade. E de cada vez que Maradona faz mais uma das suas traquinices, um mundo inteiro sorri como sorri com a traquinice de uma outra criança, e o seu mito cresce ainda mais. Aquela criança pobre de 10 anos tornou-se uma pobre criança de quarenta anos, mas ainda desafia a vida, ainda desafia o destino, ainda mantêm toda a indisciplina de criança, ainda é aquela criança que brinca com o mundo, e o mundo não é mais que uma bola, o mundo todo é uma bola, e Maradona brinca com o mundo como brinca com uma bola, e o seu olhar de escárnio, de menino mimado ainda mantém o mesmo encanto que o daquela criança que brinca com uma bola de couro que é o mundo inteiro. Maradona não é o maior génio da história do futebol. Não, é muito mais, é a criança que todos nós não podemos ser, é a infantilidade que todos os adultos querem manter, é o adulto que ainda é aquela criança que brinca com uma bola… uma bola que é o mundo inteiro.
Símbolo da magia do futebol, a sua rápida ascensão foi seguida da sua queda abrupta, criando assim um mito maior que a própria vida, símbolo do melhor e do pior que o mundo do futebol tem para oferecer. Para quem não se lembra do magico jogador na sua plenitude (como eu, que apenas tenho uma vaga memoria) a única imagem que temos de Maradona é já de alguém que os entendidos dizem ser um predestinado, mas que apenas nos é dado a ver a sua triste decadência, mais consentâneo com os podres de um mundo corrupto que propriamente a magia de um espectáculo belo em si mesmo. Todos nós já vimos e revimos imagens daquela tarde magica no México, numa meia final do Campeonato do Mundo contra a Inglaterra, em que Maradona marcou um golo com a mão, tão obvio e claro que a única pessoa em todo o planeta que não o viu a cometer essa ilegalidade foi o arbitro da partida, criando assim um tal estado de raiva no estádio e em todo o mundo que os insultos a Maradona ribombaram naquele estádio e nas mentes de todo um mundo que observava a partida através da televisão. Mas se a mão de Deus, como ele provocadoramente designou esse golo, viraram todo um mundo contra si, seis singelos minutos depois desse golo Maradona criou espontaneamente o momento mais belo da historia do futebol, recebendo a bola a meio campo, correndo feito flecha no meio de uma floresta de pernas, rasgando toda uma selecção inglesa onde pontificavam alguns dos melhores defesas do planeta, ouvindo (ou não) todo um estádio que o insultava e inclusivamente um colega de equipa que lhe gritava “Passa a bola filho da puta!” e num rasgo de génio único, marcou o melhor golo da historia do Futebol. Todo o estádio se silenciou por segundos, todo um mundo susteve a respiração, e nesse exacto momento, toda a gente percebeu que Maradona era mesmo o melhor jogador de sempre, e todo o estádio irrompeu em aplausos de êxtase, e todo o mundo que o via pela televisão soube que tinham acabado de assistir a um momento magico. Maradona era Magico, Lenda, Rei, Deus… E os insultos duraram apenas seis minutos, antes de Maradona ser coroado pelas mesmas pessoas que o crucificaram durante esse tempo.
Quem tem uma tarde assim talvez nem precise de mais nada para ser lenda. Talvez os problemas com a droga, a violência e a má-criação sejam perdoadas a quem tem um momento mágico destes, talvez isto juntamente com a sua curta mas fulgurante carreira justifiquem o mito que Maradona ainda hoje possui, talvez… Mas eu tenho outra opinião. Para mim talvez o momento em que Maradona justificou o seu mito, ou pelo menos a sua razão, não esteja naquela tarde do Verão de 1986 no México, nem na sua carreira em Nápoles, muito menos na sua passagem por Barcelona. O mito de Maradona nasceu muito antes, num bairro pobre de Buenos Aires, onde quando tinha 10 anos de idade uma equipa de filmagens de uma televisão argentina filmou por acaso uma pequena criança a dar toques numa bola. Naquele pequeno filme uma criança pequena, quase raquítica, de 10 anos demonstrava uma habilidade tal com a bola que dir-se-ia que esta fazia parte de si. Os seus olhos de criança tinham um fulgor estranho, olhavam a bola como se fosse o mundo todo, como se a sua fome de sonhos se saciasse naquele singelo objecto esférico, como se toda a humanidade, toda a vida, toda a gloria, todos os seus sonhos de criança pobre estivessem concentrados naquela bola. E a bola, o mundo, os seus sonhos, a sua vida, era como se fizessem parte de si, e ele brincava com ela. Como se aquela criança, tão pobre, tão desgraçada, tão inocente, desafiasse a própria vida, se risse de escárnio na face do destino, como se soubesse que ele, criança, inocente, sonhador e pobre controlasse o seu destino, a sua vida, todo o mundo através daquela simples bola de couro. O menino, Diego de seu nome, Diego Armando Maradona para a eternidade, ou simplesmente Maradona, controlou a vida e o destino, subiu ao céu, viveu toda a glória, realizou todos os seus sonhos de criança, mas nunca cresceu. E essa a razão do seu mito e do fascínio que ainda hoje exerce em nós. Maradona é simplesmente um puto, faz o que quer, quando quer, como quer, não respeita ninguém, não quer saber de nada senão de si mesmo, é malcriado quando quer, é egoísta por vocação, é mimado, provocador, insolente e estúpido, é a criança de dez anos em toda a sua plenitude, é a encarnação da doce memoria da nossa infância, é o homem feito sonho, a nostalgia feita carne, é tudo aquilo que todos os adultos querem ser, uma criança de dez anos cujo mundo é uma bola que voa ante nossos olhos, e que controlamos com o olhar brilhando sonhos que sabemos virem a ser realidade. Por isso o seu mito, a sua dimensão maior que a sua pessoa. Maradona é apenas aquilo que qualquer homem deseja ser, uma criança eterna, aquela criança que dá toques num mundo inteiro com aquele olhar de magia e sonho… Melhor jogador de sempre? Sim, mas não só, Maradona é muito mais que apenas um jogador de futebol, é o sonho de infância feito realidade. E de cada vez que Maradona faz mais uma das suas traquinices, um mundo inteiro sorri como sorri com a traquinice de uma outra criança, e o seu mito cresce ainda mais. Aquela criança pobre de 10 anos tornou-se uma pobre criança de quarenta anos, mas ainda desafia a vida, ainda desafia o destino, ainda mantêm toda a indisciplina de criança, ainda é aquela criança que brinca com o mundo, e o mundo não é mais que uma bola, o mundo todo é uma bola, e Maradona brinca com o mundo como brinca com uma bola, e o seu olhar de escárnio, de menino mimado ainda mantém o mesmo encanto que o daquela criança que brinca com uma bola de couro que é o mundo inteiro. Maradona não é o maior génio da história do futebol. Não, é muito mais, é a criança que todos nós não podemos ser, é a infantilidade que todos os adultos querem manter, é o adulto que ainda é aquela criança que brinca com uma bola… uma bola que é o mundo inteiro.
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009
A Falácia da Democracia
Não há muito tempo tive uma das discussões mais imbecis que alguma vez tive. O cenário era o mais trivial possível, sentados, comendo algo, bebendo algo... faláva-se de cinema. Ao meu lado atiraram ao ar a seguinte frase enquanto falavam do filme "Fast and Furious". "É um dos melhores filmes de sempre!". Eu, e outra pessoa á minha frente não conseguimos evitar uma gargalhada, e o autor de tal frase vira-se para mim e diz-me ofendido "Então não é?" E eu respondi "Tenho muitas definições para o filme, dos melhores de sempre não é uma delas.". E a discussão instalou-se... Ao me perguntar então o que era um bom filme para mim, dei o exemplo do Pulp Fiction, nunca tinha visto, nem sabia o que era, e disse "Aposto que ninguém conhece essa merda" E perguntou a quem estava à minha frente se sabia que filme era esse, ao que ele respondeu que sim, e à pergunta "E é melhor que o Fast and Furious?" a resposta foi a mais lógica: "Nem se podem comparar."
Quando percebeu que a resposta era a dizer que achava o Pulp Fiction muito melhor que o Fast and Furious, os ânimos aqueceram, e por mais imbecil que isto soe, a discussão arrastou-se imenso tempo, até á conclusão final (ou semi-final) de que "Os gostos não se discutem, vocês ficam na vossa, eu fico na minha."
E tenho pensado bastante nesta discussão, e arrastado isto para muitas outras coisas. A Liberdade, o gosto pessoal de cada um é algo acima de qualquer dúvida, um bem adquirido por excelência, e a vida só faz sentido assim. mas num caso tão gritante como este, tenho pensado se o gosto pessoal não deveria ter menos importância do que aquele que se lhe dá. O que quero dizer com isto? Há imensas obras artísticas de qualidade assumida que eu não gosto, tal como há imensas outras coisas que sei que são mero lixo de que eu gosto. Isso é o meu gosto pessoal. Mas eu tenho o discernimento de distinguir o meu gosto pessoal, da análise das coisas em si. Mesmo que deteste, sei ver o que tem de positivo, mesmo que adore, sei ver os defeitos. Claro que nem sempre sou imparcial, claro que há coisas que me escapam, claro que as emoções têm um grande controlo sobre coisas bastante subjectivas. Mas, mais importante que o todo poderoso gosto pessoal e cultura, tem que ser a inteligência. Mas não. Existe a ideia enraizada de que o nosso gosto, a nossa opinião é soberana, e isso está totalmente errado, todos nós deveríamos de ter a perfeita noção que o nosso gosto é falível, que o nosso gosto não é soberano sobre o valor das coisas que analisamos. O poder não é nosso ao ponto de podermos analisar algo apenas e só pelos factores pessoais intrínsecos à nossa pessoa. existe um mundo inteiro fora de nós, um bocado de humildade não faría mal nenhum.
Pulp Fiction é melhor que o Fast and Furious? Pois claro que é, e nem preciso de gostar de um e não gostar de outro para o saber. são duas coisas que nem sequer se podem comparar. Eu adoro Tom Petty, adoro as suas músicas, acho-as fantásticas, já bruce Springsteen pouco me diz, pelo menos não ao nível do Tom Petty, isso faz com que Tom petty seja melhor? Para mim é, mas tenho a decência e o discernimento de saber que estou errado.
Quando percebeu que a resposta era a dizer que achava o Pulp Fiction muito melhor que o Fast and Furious, os ânimos aqueceram, e por mais imbecil que isto soe, a discussão arrastou-se imenso tempo, até á conclusão final (ou semi-final) de que "Os gostos não se discutem, vocês ficam na vossa, eu fico na minha."
E tenho pensado bastante nesta discussão, e arrastado isto para muitas outras coisas. A Liberdade, o gosto pessoal de cada um é algo acima de qualquer dúvida, um bem adquirido por excelência, e a vida só faz sentido assim. mas num caso tão gritante como este, tenho pensado se o gosto pessoal não deveria ter menos importância do que aquele que se lhe dá. O que quero dizer com isto? Há imensas obras artísticas de qualidade assumida que eu não gosto, tal como há imensas outras coisas que sei que são mero lixo de que eu gosto. Isso é o meu gosto pessoal. Mas eu tenho o discernimento de distinguir o meu gosto pessoal, da análise das coisas em si. Mesmo que deteste, sei ver o que tem de positivo, mesmo que adore, sei ver os defeitos. Claro que nem sempre sou imparcial, claro que há coisas que me escapam, claro que as emoções têm um grande controlo sobre coisas bastante subjectivas. Mas, mais importante que o todo poderoso gosto pessoal e cultura, tem que ser a inteligência. Mas não. Existe a ideia enraizada de que o nosso gosto, a nossa opinião é soberana, e isso está totalmente errado, todos nós deveríamos de ter a perfeita noção que o nosso gosto é falível, que o nosso gosto não é soberano sobre o valor das coisas que analisamos. O poder não é nosso ao ponto de podermos analisar algo apenas e só pelos factores pessoais intrínsecos à nossa pessoa. existe um mundo inteiro fora de nós, um bocado de humildade não faría mal nenhum.
Pulp Fiction é melhor que o Fast and Furious? Pois claro que é, e nem preciso de gostar de um e não gostar de outro para o saber. são duas coisas que nem sequer se podem comparar. Eu adoro Tom Petty, adoro as suas músicas, acho-as fantásticas, já bruce Springsteen pouco me diz, pelo menos não ao nível do Tom Petty, isso faz com que Tom petty seja melhor? Para mim é, mas tenho a decência e o discernimento de saber que estou errado.
Sexta-feira, Janeiro 16, 2009
Noite em Branco
Quando me perguntaram se tinha passado a noite em branco hesitei. Raio de expressão, como poderia ter passado a noite em branco, se a minha noite tinha sido uma luta constante com o negro que me rodeava? Havia carros que passavam perdidos na rua por debaixo da janela, havia o vento que fazia melodias lentas e prolongadas, havia barulhos em toda a casa que pareciam pequenas explosões que tomavam conta de tudo antes de se extinguirem no negro… Não, não tinha passado a noite em branco, tinha passado a noite mergulhado no mais escuro e frio recanto de mim mesmo, havia memórias de tempos passados, de tempos presentes que pareciam passado, imagens que me assaltavam fulgurantes e se desvaneciam numa outra memória que se diluía em todas as memórias…
Não, não passei a noite em branco… Nem passei a noite se queres saber, a noite é que passou por mim, e eu nem a agarrei, nem me lembrei de esticar os dedos no ar, fechar a mão com raiva, passar a noite…. Talvez levantar-me, ir ao frigorífico, beber leite, talvez comer uma bolacha, acender no escuro a televisão e ficar ali estúpido e insensível a passar a noite, a vê-la passar por mim, mas senti-la! Assim fiquei no escuro, imóvel, sereno, turbulento na minha inanição, sentindo a noite passar por mim sem nada sentir… Noite em branco… pois sim… Como se houvesse algo claro no meu silêncio…
Não, não passei a noite em branco… Nem passei a noite se queres saber, a noite é que passou por mim, e eu nem a agarrei, nem me lembrei de esticar os dedos no ar, fechar a mão com raiva, passar a noite…. Talvez levantar-me, ir ao frigorífico, beber leite, talvez comer uma bolacha, acender no escuro a televisão e ficar ali estúpido e insensível a passar a noite, a vê-la passar por mim, mas senti-la! Assim fiquei no escuro, imóvel, sereno, turbulento na minha inanição, sentindo a noite passar por mim sem nada sentir… Noite em branco… pois sim… Como se houvesse algo claro no meu silêncio…
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